quarta-feira, 18 de abril de 2018

Proteção Animal, patologia ou missão?

Todos os dias recebo dezenas de mensagens pedindo resgate para uma ninhada abandonada numa caixa, ou um animal atropelado que está agonizando, recebo mensagens absurdas dizendo que o animal da família precisa ser encaminhado para algum abrigo ou ONG porque a pessoa vai mudar, ou tem alergia, ou porque a mulher tá gravida, a mãe não quer, chegam a alegar que o animal está triste naquele lar. Tudo com um único intuito,o abandono. [...]


Um dia desses um cidadão entrou em contato comigo dizendo que precisava doar seu gato de dez anos. Gato que ele adotou pequeno e que estava obeso e doente. Não são dez dias, são dez anos e sem nenhum remorso a pessoa procurava um abrigo para se livrar do problema.

Semana retrasada um gatinho adotado conosco quando tinha dois meses foi devolvido quase um ano depois, motivo? A filha fez cirurgia, a mãe é idosa, o gato pula na cama, mia muito, etc, etc, ect… e olha que somos extremamente criteriosas nas entrevistas de adoção! Mas nesse caso erramos na seleção.

Assim, existem milhares de casos em todo pais, em todo mundo, pessoas sem nenhum senso de responsabilidade, desprovidas de inteligência, amor e humanidade. Pessoas que tratam os animais como objetos. Tratam como coisas, sem sentimentos, substituíveis e descartáveis.

Sei lá, eu me revolto, xingo, denuncio, mas mais que isso, eu me entristeço por não conseguir ajudar a todos. Eu me entristeço pelas contas imensas que temos nos veterinários, me entristeço pelos animais que não chegam até nós, pelos que não temos condições de ajudar.

Não é raro vermos protetoras se afastar da proteção psicológica e financeiramente destruídas, após anos nessa vida onde o limite não existe. Onde nos doamos e ajudamos de maneira desenfreada, onde o vermelho da conta já não nos faz parar, onde as mortes de nossos resgatados nos trazem culpa, onde a dignidade fica por um fio ao compartilharmos pedidos de ajuda financeira, lar temporário e adoção. Pedidos que quase nunca são escutados, e que nos causam a impressão de que estamos sozinhos.

Ontem vi dois animais que são resgates de pessoas que se intitulam protetoras, uma delas eu conheço e realmente sempre fez um lindo trabalho, mas algo está errado.

Um dos animais estava lotado de pulgas, centenas de carrapatos e com uma otite de dar dó, a outra levou uma cadela com feridas no vivo, cheirando a podre, ambos numa situação lastimável e foram castradas nessa condição.

Quando resgatamos um animal deve existir bom senso, devemos seguir um protocolo, que envolve resolver rapidamente a higiene e a saúde do resgatado, para depois castrar. Acho que estamos nos perdendo nos superpoderes que nunca tivemos. Acho que estamos nos afogando num amor que infelizmente em alguns casos tornou-se patológico. Animais amarrados à correntes é maus tratos, seja no quintal de um protetor ou na casa de uma pessoa comum.

Os valores estão se invertendo!

Me desculpe meu amigo protetor se te ofendo com esse texto, tenha certeza que essa não é a minha intenção, mas olhe a sua volta. Veja se realmente você está dando conta da missão que tomou para si. Veja se tem condições para continuar. Resgatar não é tirar de um sofrimento para colocar em outro. Acumulo, correntes, sujeira e falta de cuidados médicos não faz parte da proteção animal. Apenas pense, você está fazendo isso certo?

Por Cynthia Gonçalves